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Ética: a competência que diferenciará os profissionais do futuro

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br Descrição: http://www.rh.com.br/Portal/imagens/seta_baixo.jpg

Descrição: http://www.rh.com.br/imagem/10154.jpgA correria vivenciada no dia a dia faz com que, muitas vezes, as pessoas não se deem conta de que viver em sociedade não é apenas usar expressões como: "Bom dia!"; "Olá! Tudo bem?", "Até amanhã e lembranças a todos da família". Logicamente que utilizar um vocabulário educado é sempre bem-vindo para as relações humanas. Porém, existem muitos outros fatores que formam uma sociedade e um deles é a "Ética" - termo que significa aquilo que pertence ao caráter, aos valores e aos princípios de uma sociedade, de um grupo ou de uma organização.


De acordo com Marco Ornellas, consultor, psicólogo com especialização em comportamento humano, num sentido mais pragmático a ética são os valores e os princípios que regem uma sociedade, às vezes confundida como lei, embora muitas leis tenham a ética como base. 


E como a ética abrange todas as esferas da sociedade ela também se faz presente no dia a dia das organizações. "Uma empresa ética tem clareza sobre seus valores e princípios e uma prática cotidiana moralmente correta na forma como se relaciona com o meio ambiente. Uma empresa ética e uma moral correta têm impacto muito positivo nos resultados, em particular nos dias de hoje, onde transparência e verdade são princípios desejados. A ética empresarial traz imagem positiva e um olhar para três direções importantes: para os resultados, para o meio ambiente e para as pessoas e a sociedade", esclarece Marco Ornellas, durante entrevista concedida ao RH.com.br.


Na entrevista desta semana confira, ainda, quais as características de um profissional ético e quais os impactos que um colaborador que atua eticamente agrega a uma empresa. Boa leitura!


RH.com.br - Afinal, o que significa ética?


Marco Ornellas - Antes de qualquer coisa é importante definirmos o que significa ética, palavra essa que entrou no nosso vocabulário de maneira tão impactante, nos últimos temos. Quando falamos sobre ética, nos referimos a um termo do ramo da filosofia derivada do grego e que significa aquilo que pertence ao caráter, aos valores e aos princípios de uma sociedade, de grupo ou de organização. Num sentido mais pragmático a ética são os valores e os princípios que regem uma sociedade, às vezes confundida como lei, embora muitas leis tenham a ética como base. Moral, outra palavra diretamente relacionada à ética, significa a sua prática. A moral é relativa e pode ser mudada, já a ética, por se tratar de valores e princípios, dizemos, são mais universais. A moral se fundamenta na obediência as normas, costumes e leis, já a ética se traduz no modo de viver das pessoas. Por exemplo: a Declaração Universal dos Direitos do Homem diz em um dos seus artigos: "Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego", entretanto algumas nações adotam esses valores e criam programas e outras simplesmente não fazem nada nessa direção. Trazendo um pouco mais para nossa realidade, acredito que a maioria das empresas envolvidas em escândalos de corrupção tem em seus códigos de éticas cláusulas referente a negociações com preço justo, respeito com o bem público, e a não prática de propinas e uso de caixa dois. No entanto, em algumas indústrias, isso é uma prática absolutamente comum, às vezes até percebida como natural.

 

RH - O que caracteriza uma empresa ética?


Marco Ornellas - Respondendo à sua pergunta, uma empresa ética é a empresa que tem clareza sobre seus valores e princípios e uma prática cotidiana moralmente correta na forma como se relaciona com o meio ambiente. Uma empresa ética e uma moral correta têm impacto muito positivo nos resultados, em particular nos dias de hoje, onde transparência e verdade são princípios desejados. A ética empresarial traz imagem positiva e um olhar para três direções importantes: para os resultados, para o meio ambiente e para as pessoas e a sociedade. Recentemente, o grande escândalo da fraude da Volkswagen com respeito à emissão de poluentes em milhões dos seus carros, trouxe a demissão do seu presidente, uma imagem pública abalada, queda nos resultados e inúmeras outras consequências de grande dimensão como, por exemplo, a proibição de venda de carros na Suíça.

 

RH - É possível traçar um perfil para um profissional ético?


Marco Ornellas - O profissional ético é aquele que é justo, correto e toma decisões adequadas com seus valores e princípios. Entende-se que esse profissional hoje represente um projeto, uma organização e se entende que o processo de seleção e escolha de parte a parte foi balizado por alinhamento de valores e princípios, dessa forma, profissional ético é aquele que pratica os valores e os princípios da organização. Ética nesse caso tem muito a ver com integridade - agir conforme os princípios e resistir à tentação de soluções e escolhas momentâneas, muitas vezes, olhando apenas o resultado financeiro final. É importante nesse momento reconhecermos que a realidade, às vezes, é bem diferente, pois ainda que as empresas tenham clareza dos seus valores e princípios, muitas delas abandonam "esse discurso" frente à primeira crise ou emergência. É o que se costuma dizer: todos temos um preço. Um profissional ético para mim significa um profissional honesto não se deixando enganar por resultados e lucros imediatos; íntegro agindo exatamente pelo que acredita e valoriza; e corajoso para tomar decisões, principalmente àquelas que são difíceis e confirmam a moral do grupo e da sociedade ainda que às vezes não praticada. No início dos escândalos apontados e veiculados na Operação Lava-Jato, lembro que o executivo Ricardo Semler falou em entrevista: "Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80 e 90, até recentemente". Digamos que sua decisão foi de muita integridade, honestidade e principalmente corajosa. Abandonou ganho certo pela coragem de ser íntegro naquilo que acredita e valoriza. Em minha opinião essa será a competência que diferenciará os profissionais do futuro, em especial das lideranças.

 

RH - Quais os alicerces que dão sustentação à ética organizacional?


Marco Ornellas - O grande alicerce em minha opinião está em como os principais executivos, CEO e CFO se posicionam e fazem negócios, na forma como buscam e valorizam os resultados e no quanto tomam decisões impopulares quando valores e princípios são descuidados ou esquecidos. Juntem-se a eles, os Conselhos de Administração, que precisam trazer para seus indicadores de resultados outros fatores importantes como: sustentabilidade para o meio ambiente e para as pessoas e a sociedade.

 

RH - Que fatores influenciam a solidez da ética corporativa?


Marco Ornellas - Retornando ao exemplo dado anteriormente, a solidez da ética corporativa está na coragem das escolhas que uma organização tem que fazer e nas decisões importantes e alinhadas que tem que adotar. Todos os dias somos tentados a fazer escolhas fáceis, de resultado de curto prazo, todos os dias somos pressionados por jogar em um ambiente de competição selvagem e canibalesca. Isso é tão real que passamos a ver como natural àquilo que não é da nossa natureza. Somos seres amorosos e cooperativos por natureza, abandonamos nossa natureza, deixamos nosso passado lá atrás e estamos indo na direção oposta, claro que sem deixar de pagar uma elevada conta: estamos destruindo a natureza e tornando o meio ambiente quase inabitável, competimos com o outro com o simples prazer da destruição ao invés da superação e desafio. Olhamos nosso cenário com imediatismo a ponto de não nos sensibilizarmos nem um pouco com o planeta que estamos deixando para nossos filhos. Poluímos o planeta com um consumo exagerado e absurdo, mergulhando num ciclo contínuo de compra e descarte sem medida. Diante de tudo isso, precisamos de muita coragem para no manter em linha com nossos princípios e valores, ou seja, aquilo que acreditamos e faz parte da nossa natureza. Remamos contra a maré, seguimos com força e muita determinação por caminhos que outros desqualificam e caçoam. Essa é a coragem que me refiro.

 

RH - Quais os agentes que podem fragilizar a ética no ambiente organizacional?
 

Marco Ornellas - Se ética pertence ao caráter, aos valores e aos princípios de uma sociedade, um grupo ou uma organização diríamos que não existe agente que fragilize a ética organizacional. Ou se acredita e se pratica esses valores e princípios ou são apenas belos textos criados por designers e marqueteiros para serem colocados nas paredes e em peças de comunicação da empresa. Claro que manter coerência, o tempo todo, com o que se acredita, não é algo simples e fácil. Estamos escorregando o tempo todo. Nesse sentido, o antídoto para a fragilização é o constante diálogo e debate dessas questões: nossos valores e princípios e nossos comportamentos, escolhas e decisões que tomamos ou precisaremos tomar.

 

RH - De que maneira a ética organizacional deve ser disseminada, para os stakeholders tenham conhecimento sobre sua importância?
 

Marco Ornellas - Nossos valores e princípios precisam ser amplamente divulgados e disseminados, dentro e fora da organização. Acreditamos que eles são orientadores das nossas decisões e escolhas. Os valores e os princípios precisam sair do papel e transformarem-se no dia a dia. A clareza e a transparência facilitam os negócios e nos aproxima de nossos iguais. Se, temos clareza e escolhemos por valores e princípios, nossas escolhas de colaboradores, fornecedores, clientes, serão boas. Alguns anos atrás, eu me lembro de um programa de ética corporativa do Banco Real. Nós da Ornellas, fomos convidados a participar de um workshop conduzido em parte pelo próprio presidente do banco, na ocasião, com discussão e explanação sobre uma proposta de valor e um rigoroso código de ética sobre boas maneiras de fazer negócio. A Natura, anos atrás desenvolveu um programa do tipo "rede social" para o recrutamento de estagiários e trainees. Na ocasião a diretora, Denise Asnis, já apontava a importância não só de selecionar as pessoas tecnicamente qualificadas, mas as que estão alinhadas com os propósitos de vida e os valores da organização. Esses são exemplos práticos de disseminação da ética organizacional para todos os stakeholders.

 

 

RH - Qual a influência que os líderes exercem na ética organizacional?
 

Marco Ornellas - Total. Se liderança é modelo e referência, não existe ética organizacional sem que tenhamos como exemplo a liderança. Nenhum comportamento escolhido para ser a prática dos valores de uma organização pode estar ausente da lista de condutas da liderança. Aqui, costumo dizer, que para cada decisão importante tomada por nossas lideranças, tem uma plateia grande de observadores silenciosos. São esses os momentos da verdade que se verifica a consistência dos nossos valores e princípios.

 

RH - Aonde se posiciona o profissional de RH, quando o assunto em pauta é ética corporativa?
 

Marco Ornellas - A ética corporativa, os valores e os princípios corporativos têm tudo a ver com o profissional e a área de RH. Sob a direção de RH estão todas, eu disse todas, as áreas que de alguma forma disseminam, mudam, consolidam ou reforçam os valores de uma organização, da seleção - os critérios de escolha são balizados por valores, passando pela promoção e movimentação - quais comportamentos são valorizados e estimulados, programas de treinamento - as teorias que reforçam comportamentos e estilos, até o momento do encerramento do contrato de trabalho - critérios e motivos de demissão. De um modo bem simples e direto, está na mão de RH a validação e prática dos valores organizacionais. Claro que cabe especificar que essa discussão só faz sentido se o RH assume um papel estratégico, ao invés de simplesmente operacional. Interferimos de forma ativa na cultura ou simplesmente operacionalizamos o que o negócio deseja e quer? "Tiramos pedidos" ou atuamos de uma forma consultiva e assertiva, alertando, envolvendo e decidindo junto com os executivos?

 

RH - O Brasil vivencia um momento de crise ética nas esferas governamentais. Que reflexos isso pode gerar às empresas?
 

Marco Ornellas - Como cidadãos estamos todos os dias nos noticiários impactados com uma avalanche de informações sobre corrupção, desvio de dinheiro público, enriquecimento ilícito e todo tipo de desvio de moral nas corporações, no Brasil ou no Exterior. Mas é importante destacar que a crise ética está na raiz da nossa sociedade, na nossa história e no nosso cotidiano. Gosto de relembrar um trecho da poesia de Elisa Lucinda quando diz: "Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau". Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!". Não conseguimos mudar o começo, mas podemos mudar o final. Todos nós temos esse compromisso: para comigo, para com o outro, para com nossos filhos.

 

Fonte:  http://www.rh.com.br/Portal/Mudanca/Entrevista/10154/tica-a-competencia-que-diferenciara-os-profissionais-do-futuro.html?utm_source=boletim&utm_medium=email&utm_campaign=764#

 

 


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